Escrito Homem Torto por Renato Jacques

O PESCOÇO DO HOMEM TORTO

O pescoço do homem torto chega uma hora dói, porque ele passa muito tempo com o rosto virado, ora para um lado ora para o outro. Sou eu o homem torto. Acordo em Taiwan. Contorcido ao limite. A começar pelos pés, poderosos e alongados. Ossos sem ossos. Impura massa. O homem torto prepara o terreno de sua dança, espécie de vinheta. Ele está lá. Tronco e pernas vestidos. A luz acesa se apaga. Escuro breve, a luz se acende, seu tronco está nu, é o homem torto e diante dele o espaço chão anuncia ao longe a dança que ele começa, um ser apequenado pela grande nave, ele dança contra a imensidão. Na lonjura a força do homem torto é captar a atenção num espaço tridimensionalmente enorme. O homem torto começa com o que parece ser uma grande ideia de Giacometti, estátuas de pessoas vistas ao longe. Mas elas se vão aproximando, transitantes, estátuas taoístas, budistas, japonesas, chinesas, indianas. O homem torto é a memória de esculturas infindáveis. Figuras que ficaram em si, aqui, no corpo. O homem torto começa há muito tempo sob a forma irônica e iluminada de um ser que se vai retorcendo para trás, sem braços e quase sem cabeça, “a negação total do sujeito”. Ele vai então sendo tomado, às vezes por um gesto que repete uma mão que sai de sua boca em forma de naja. Serpente desértica que ora o pica ora o engole. Os olhos de um possuído. Por estátuas. Formas primordiais a carregar gente adentro. De uma transformação para outra, sem intervalo, em movimento. O aleijado, o rei, a rainha, a criança, o cego, os egípcios. O corpo se abre e seus limites se borram, basicamente sem dó. O homem torto vem vindo em nossa direção e o seu corpo cresce à medida que ele se aproxima. É ele, quase aonde quer que vá. Mais tarde, talvez uma hora depois, ele está finalmente diante de nós, de olhos fechados, lindo, a pele clara, húmida, o abdome cintilante a tremular. Eu vejo. Diante de mim seu corpo suga o espaço. Nada além dele. Enorme. Em cena uma maquineta de modulação do tempo movida a frente e costas. De frente o tempo para. De costas o tempo corre. Se me sento longe, ele passa a maior parte do tempo de frente para mim e o tempo estaca. Se me sento perto, ele passa a maior parte do tempo de costas e o tempo dispara. Uma hora se transforma em vinte minutos. O homem torto possui a felicidade de salientar a relatividade do tempo. Mas ele não é torto o tempo todo. Se quisesse poderia se contorcer mais, radicalizar a tortura. Mas ele gosta mesmo é de dançar. Então é torto e meio, e com revolteios sempre adiante. Ele fala dançando. Sem palavras. O ato de dançar imagens que acontecem, mas são resquícios. O homem torto carrega consigo a lembrança de um certo desespero. Durante um ano, ele se fez sem lugar fixo, fazia-se em quartos de hotel, ruas, museus, templos, praças, igrejas. A gênese de um corpo sem espaço dado. Até encontrar, como numa fábula, o salão nave de um palácio monastério veneziano. Espaço esse que lhe oferece o caminho, um longo e largo corredor, uma passagem. Um corpo caminho. A estilização de um percurso. Indo, indo, ele atravessa, passa por vários lugares entre a Ásia e a Europa, até chegar aqui. Eu sei que ele virá, há luz aqui, ele virá. O peregrino solitário virá, em direção à deusa do mar. Nós, às bordas do mar aberto, somos também casas que vão se abrindo a ele. Somos também templos que o homem torto adentra encarnando estátuas de outrora e nós, alguns, a lhe dar comida, água, banho – assim ele não apodrece. Com o passar das chuvas o homem torto vai ficando mais claro. Apesar de torto ele é direto, marcial. Talvez matasse se preciso fosse. Em Taiwan ele passou muito tempo só. De costas, parado, ele foi envergando e sua imaginação começou a derramar para fora da cabeça, na superfície vítrea de um cinema de sombras. Uma criança foi a primeira pessoa a notar o fato, quando surgiu ao fundo escuro a olhá-lo. Sua imaginação emanava ruídos como os que vêm da rua. Sua imaginação emanava luzes que vinham da rua, dos automóveis. Um clarividente, ele nos conta sua imaginação por meio da mudez eloquente da dança, língua gesto. Ao final de tudo, fim do fim, vem uma borracha veloz em forma de marcha ré e apaga cada linha deste texto, como se tudo isso fosse à toa. A borracha foi a primeira das imaginações do homem torto que a criança viu no cinema de sombras.

Renato Jacques é antropólogo, escritor, tradutor e aspirante a dançarino.

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